domingo, 12 de outubro de 2008

.:.Da janela, a vida que eu quis.:.

Para ler ouvindo Quem vem pra beira do mar, Dorival Caymmi.

Costumo passar alguns momentos dos finais-de-semana na janela, olhando o horizonte e procurando silenciar os pensamentos. Hoje, entretanto, eles estavam mais altos que o silêncio. Deixei-os correr, até que chegaram à indagação de como seria a vida ideal aqui nessa terra.

Não houve dúvidas, a vida perfeita aqui seria passada inteiramente numa praia, uma pequena aldeia de pescadores, bem perto do sol e da lua, onde cresceria com meus muitos irmãos e, com a mãe, aprenderia a fazer redes de pesca, a plantar e a saber da utilidade das ervas. Às vezes, em tardes de vento suave, o pai nos levaria para passear no barco, mas a maioria do tempo seria de correr na areia, banhar-se na ribeira e ouvir as histórias dos mais velhos – sobretudo quando houvesse fogueira à noite com violões, violas e algumas decisões sobre a festa de reizado.

Cresceria por ali e, já moça, casaria com o primeiro namorado. Nos dias de vento suave, ele me levaria até alto mar para admirarmos o horizonte se espalhar para todos os absolutos lados. E com tanto amor, teríamos meia dúzia de crianças, a quem contaria histórias e ensinaria os segredos que guardam as águas e as pedras. Minha agonia ficaria a cargo das noites de temporal, quando meu amor insistisse em ir buscar peixes. Não dormiria por preocupação, agarrando-me a Nossa Senhora dos Navegantes – que sempre atenderia às tantas preces, trazendo-o de volta junto com o amanhecer.

As rugas seriam sinal de vivência a ser respeitada. E quando já estivesse cheia delas, numa noite de fogueira, contaria histórias (os netos a correr atrás de vagalumes) sobre um tempo em que os homens viviam tentando entender como viver bem e, para tanto, rotulavam, classificavam, hierarquizavam e disputavam (como disputavam!), esquecendo-se de que viver bem é viver de peito limpo, leve, no amor e na simplicidade, percebendo o céu e toda a beleza que há sob a guarda da Natureza. Alguns mais novos rir-se-iam por estranhar tamanha ilusão, outros ficariam compadecidos por conta da cegueira dos tempos contados.

Voltaria mais cedo para casa e após me preparar para dormir, beijaria, como em todas as noites, o retrato do querido amor na parede da sala (os meninos costumam partir antes) e a imagem de Santa Sarah no altar da casa, pedindo-lhe a benção (e sorriria ao lembrar de minhas irmãs, que sempre faziam graça do hábito de beijar a santa e suas fitas coloridas). Ao deitar, agradeceria a Deus por toda a glória que era a vida, pediria a Nossa Senhora dos Navegantes pelos meus filhos, filhas, netos e toda a gente da aldeia e, com o coração pleno em serena felicidade, recordaria de um tempo em que ficava na janela de uma casa que não era construída no chão, mas sim em cima e embaixo de outras casas, de onde olhava as ondas do mar e imaginava como seria boa uma vida simples, mais perto do sol e da lua. E ao perceber a realização daquele grande desejo (ainda ouvindo os estalos da fogueira do lado de fora da casa), fecharia os olhos do velho corpo, podendo, finalmente, voltar a viver com as estrelas dos céus.

6 comentários:

Ana P. disse...

Bel, você sempre me emociona. Sempre!

Clara Gomes disse...

lindo.
:)

luz sublime disse...

Eu quero igual a sua, pode? Beijos!

Luiz de Aquino disse...

Amei. O que eu queria? Ser um dos filhos...

Carolina Arêas disse...

Bel,

Acredite porque acontece.

Eu sonhei várias vezes (durante à noite e de olhos abertos também) com um local muito bonito: arbustos recortados, fontes jorrando água cristalina e muitas flores e verde em volta. Meu filho correndo livre e feliz. Esta imagem veio a minha mente milhões de vezes.

Vim parar no Canadá e no parque em frente a minha casa eu encontrei este lugar. Igual em todos os detalhes do meu sonho. Tintim por tintim.

Pois é... ; )

Um beijo, querida!

Duda disse...

Lindo!