sexta-feira, 24 de outubro de 2008

.:.La transcendance.:.

Inspirado nas palavras perguntadeiras de Carolina Arêas.
.

Quando perguntaram se achava que tinha intimidade com as palavras, ela franziu a testa meio surpresa, o olhar voltou-se para dentro a se perguntar se aquela habilidade, intimidade, ou seja lá por que nome responda, tinha alguma importância. Os pensamentos foram interrompidos pela quase mesma frase, mas agora a interrogação havia sido substituída por uma afirmação, seguida de uma despedida que a adjetivava (ou substantivava?) como poeta. Ela continuou tomando seu café. Por detrás dos óculos, eu conseguia ler suas letras internas ainda absortas em indagações sobre a tal intimidade com as palavras.

Poeta?! – escreviam seus olhos. Se fosse falar da arte que mais lhe é cara, falaria da música. Só a música é capaz de fazê-la transcender, de deixá-la suspensa para além do grande depósito de fatos que é o tempo. Das criações humanas, não há nada mais sagrado. A música é capaz de entrar por todos os poros, harmonizando os sentimentos que nos formam, é capaz de nos despir da alta densidade do corpo físico... E a cada nota parece expandir mais e mais os átomos que nos compõem. A música nos faz éter. E não importa se executada por nós ou não, se temperada ou não, é a arte mais nos aproxima do divino.

(pelo menos ela sentia assim, lembrando-se de uma época, quando tinha mais idade do que hoje, em que eram as notas tecidas no piano por suas mãos enrugadas as únicas capazes de aliviar a dor dos caminhos trilhados)

A dança é arte conseqüente à magia dos sons. Quem a pratica tenta viver a música no físico e no espírito, quem a assiste busca ver expresso na carne o que acontece com a alma (e talvez a bela Duncan tenha revolucionado a dança justamente por devolver-lhe a liberdade de movimentos, por deixá-la mais gasosa). Mas como o corpo não é etéreo, ao espectador um espetáculo de dança nunca é completo. Para assim ser, deveríamos fechar os olhos e permitir que os sons tocassem-nos por inteiros. Já não seria, pois, um espetáculo de dança.

A música seria, então, divina tanto para quem é ativo, quanto para quem é passivo em sua execução; já a dança só funcionaria dessa forma para quem a pratica, aos que a assistem, restaria presenciar algo belo, mágico, mas incapaz de tocar-lhes completamente. E as letras? O que seriam as letras senão um exercício mental? Se o transcender é ir depois da mente, restaria algo de divino à literatura ou apenas momentos de organização de idéias, símbolos, memórias? Expressaria em suas linhas e entrelinhas algo além do que podem compreender as palavras?

Por mais belos que sejam os romances, os poemas, contos et cetera, há sempre algo que os prende à terra. A literatura trabalha com as palavras, linguagem de mente para mente, incapaz de expressar toda a imensidão dos sentimentos, das sensações. Quem sobe nos ares não fica no chão... Quem sobe aos ares não fica no chão...


Procurando relembrar os versos lidos na infância, finalmente moveu o olhar para fora de si, buscando alguma referência externa que lhe ativasse a memória. Pelo reflexo do espelho da cafeteria, me viu. Sorri-lhe com a cumplicidade que só aqueles que lêem as letras internas de outra pessoa têm, completei:


Quem sobe nos ares não fica no chão
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!


Sorrindo-me com a mesma cumplicidade, levantou-se para ir embora. Ao passar pela minha mesa, envergou-se até a altura dos meus ouvidos, estendeu-me um guardanapo dobrado e disse quase que inaudivelmente:


– Menina, para ser poeta deve-se fazer mais do que bons poemas. Deve-se ver o mundo com alma e espírito.


Abri o guardanapo e li, caneta falhada, apenas uma indicação: Debussy – Claire de Lune.


8 comentários:

Anônimo disse...

já registrou nos direitos autorais, né/

bjs,
duda

.:.Isabel.:. disse...

Sim, sim.
Tudo devidamente registrado.
Nada fica "solto" nesse blog, nem espirro de três palavras!

;)

Sâmia disse...

Foi sim, Bebel.
Mas tá tudo nos conformes, vice?
Beijocas

Carolina Arêas disse...

Agora, mais do que nunca, tenho a certeza de que sabes brincar com as palavras. Que sejam em forma de som, dança, escrita, pintura... é tudo arte. E disto, sei que entendes tão bem.

És uma maestrina das palavras.

Adoro Claire de Lune.

Maria dos Açores® disse...

Obrigada pela tua visita!!! Adorei o teu blog... a calma e serenidade que transmite... visitarei-o mais vezes!!! Beijocas fofas

Ana P. disse...

Fada Bel,
Obrigada por soprares um texto tão encantador e inspirado.
Beijo

Anônimo disse...

Bebels,

quanta delicadeza nas palavras.
Do visual ao conteúdo, esse blog é de uma beleza ímpar.

Beijos da Moniquinha.

Ana P. disse...

Ei, cadê você?!?!?!