Ao caro Bd
(para ler ouvindo o álbum The Bend, Radiohead)
Já passava das duas quando a campainha tocou. Da janela via o movimento dos carros. Respirou fundo e caminhou lentamente para a porta. Cara de tédio, sequer olhara pelo olho mágico quando girou chaves e maçaneta.
(para ler ouvindo o álbum The Bend, Radiohead)
Já passava das duas quando a campainha tocou. Da janela via o movimento dos carros. Respirou fundo e caminhou lentamente para a porta. Cara de tédio, sequer olhara pelo olho mágico quando girou chaves e maçaneta.
– Ouvi você ligando o som... – olheiras profundas, o vizinho de porta e amigo querido mal disfarçava angústia – Radiohead?
– Que houve? – escancarou a porta do conjugado em convite, voltou para dentro, abriu a geladeira – Só tenho água para te oferecer. Água e colo. – disse elevando a voz para que pudesse ser ouvida do corredor, onde ele trancava a porta de seu apartamento.
– Hein?
– Água e colo. – deitou-se no sofá-cama. Barriga para cima e leve sorriso, observando-o entrar no apartamento.
– Colo. – acomodou a cabeça sobre o ombro dela, nariz colado no pescoço, abraçando-a pela barriga.
Olhos fechados, ele sentia o calor do ar que há pouco expirara voltar para si, misturado ao calor do pescoço dela. Olhos semi abertos, ela prestava atenção à música, cantarolando em murmúrio but I can't help the feeling. I could blow through the ceiling if I just turn and run.
– Você acha que vale a pena? Viver de cara. – perguntou sem descolar o nariz de seu pescoço.
– De cara limpa ou cara torta? – tentou desfazer-se da seriedade que ele impunha, mas enseriou. – Acho que é mais saudável. Rins e fígado agradecem.
– Hum. E a alma? Sem anestesiar a existência? Sabe quando existir dói? Dor fina, que dói dentro e fora.
– E até as pontas dos fios de cabelo. Minha teoria é que de cara, sem anestesias, o que dói vai ficando tão insuportável... porque o que dói não é existir, mas talvez não estar à vontade com aspectos da existência. Sei lá, uma raiva de si mesmo, entende? – Sentou-se para olhá-lo nos olhos, como achava de bom tom fazer toda vez que tecia seus discursos sobre a vida – Um sentimento que a maioria das pessoas têm, que pode variar desde um leve desconforto até um ódio absoluto, aí os suicidas. E as gentes ficam buscando incessantemente coisas para se distrair do que odeiam em si e projetando tudo isso pra fora.
Ele ainda buscava uma nova posição tão cômoda quanto a inicial. Dobrou o travesseiro, colocou o braço em baixo da cabeça. Ela sorriu, sobrancelhas e queixo em pé a indicar que deveriam prestar atenção à música: prozac painkillers when you've got to feel it in your bones. Ares de antesestavamelhor, ele sentou-se. Arrumou dois travesseiros na cômoda e recostou-se. Impaciente, disse:
– Got to feel it in your bones e na carne y en el alma. Entendi. E aí? Você estava dizendo que ficaria tão insuportável que?
– Que ou se transforma, ou se transforma. Não tem outra saída o fundo do poço, só resta subir, só resta mudar a forma de se lidar consigo mesmo. Só resta morrer para o que dói e renascer para uma outra onda. Eu acho que deve ser assim. E, respondendo à sua pergunta, é melhor não se dispersar tanto, para se chegar mais rápido ao impulso de mudança. Sei lá. Sei lá. – Desanimando, deitou-se novamente.
– Quer água? – ele perguntou coçando a barba, já abrindo a geladeira.
– E colo.
Encheu apenas um copo dos grandes, pequeno balde, como costumava chamar. Deu um longo gole e entregou a ela, que ergueu a cabeça apenas o suficiente para não derramar água sobre si mesma . Ele deitou-se ao seu lado. Cabeça descansando sobre o ombro dela, nariz colado no pescoço, perguntou:
– O que você estava fazendo antes de seu vizinho chegar, importunando com o esboço do que poderia vir a ser o início de uma fissura?
– Ouvia música, insone. Estava pensando que o tanto de progesterona no meu corpo não me deixa saber se os homens são capazes de amar. Homem ama? – repousou o copo sobre o criado mudo, derrubando dois lápis no chão.
– Claro. Quantas vezes você já não me viu amar? – erguendo o indicador, frisou – E amar visceralmente!
– Mas e homem hétero? Ama?
– Ama. Ama sim. – Apoiou o corpo sobre braço e cotovelo, para olhá-la firme – Ama gay e ama hetero, ama com barba ou sem bigode. Ama homem respeitoso, ama inclusive homem galinha! Talvez muitos escondam isso de si mesmos e das mulheres, mas amam sim. – Desabou o corpo novamente sobre o sofá-cama e sorrindo de canto de boca, falou mais baixo – Acho que o que a gente precisava hoje era de um baseado, uma ponta que fosse, e deixar para começar a doer até o fim amanhã. Só amanhã.
– O amanhã não existe. Ele é sempre amanhã porque hoje é sempre hoje e amanhã é só amanhã. Todos os dias. – Respirou fundo, constatando o enfado em teorizar sobre tudo o que há. – Malboro te serve? Acho que o idiota acabou largando algum aqui em casa. – virou-se para remexer o criado mudo. Primeira gaveta, segunda gaveta, terceira gaveta. Sempre na última. Sempre na última, o idiota – resmungava. Abriu o maço: um isqueiro e apenas um cigarro.
– Bom que a gente não precisa se levantar – ele riu, puxando o maço amassado das mãos dela. Acendeu com calma. Tragou profundo.
Calaram para ouvir mais atentamente a música. You do it to yourself, you do. And that's what really hurts, is that you do it to yourself. Olhavam para o teto, cinzas dentro do maço equilibrado sobre a barriga dele. Quase sem abrir a boca, ele comentou:
– Poderíamos cogitar a idéia de alugar uma casa juntos. Assim, quando algo nos doesse, deitados no jardim, admiraríamos as estrelas e não esse seu ventilador de teto empoeirado.
– É uma idéia boa. Mas nossas vidas financeiras só nos permitem, no máximo, comprar aqueles adesivos de estrelinhas brilhantes. Poderíamos tentar reproduzir as constelações.
Permaneceram depois em silêncio dividindo, taciturnos, a nicotina. Cavalheiro, concedeu a ela o último trago possível naquele cigarro. Sério, perguntou:
– Você acha que a gente chega lá?
Concentrada, aspirou a fumaça como se dela pudesse ter alguma inspiração. All these things into position. All these things we'll one day swallow whole and fade out again and fade out again. Expirou observando-a subir e desfazer-se. Immerse your soul in love, immerse your soul in love.
– Acho que quando menos esperarmos chegaremos às estrelas, que moram atrás de todo esse teto de tijolos, cimento e poeira.
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Em tempo, Tenho várias considerações a fazer a respeito do carnaval de rua do Rio e sobre o vergonhoso rebaixamento do meu Império Serrano.
Sobre o carnaval de rua, ainda devo postar algumas linhas. Já sobre a injustiça cometida contra o Império, há um blog que vem cumprindo quase que perfeitamente a tarefa, o blog do Marcelo Moutinho, que escreveu muito bem sobre o maior assalto do carnaval. Só discordo de uma coisa: o rebaixamento de 2007 não foi justo, visto que a Porto da Pedra também deixara muito a desejar.
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9 comentários:
Bel, tristonho e esperançoso o conto. Bonita e cuidadosa a forma como vc escreve.
Quanto ao Império, concordo plenamente!
beijocas!
Kate
Belíssimo conto!
Beijos, Clarisse.
Moça, que saudades!
Sabe que eu chorei a primeira vez que o li? A primeira e a segunda para dizer a verdade. Lindo.
Quanto ao Império ...'aprendi dançar samba vendo samba de pé no chão, no Império Serrano a escola da minha paixão ...' [O samba é meu dom]. Doeu, sabia?
Beijo, Flor!
Muito bom, Bebel!
As músicas casaram perfeitamente com o espírito do conto
Eu nunca tinha ouvido o RadioHead conscientemnete, digo, sabendo do que se tratava, tudo ficou melhor agora. Já ouvi sete músicas no You Tube desde as 5am, sete porque repeti uma chamada "You", uma versão "live", bonito de ouvir e ver. Quer saber de uma coisa idiota...sabe aquela música que a Marina Lima canta, aquela que faz sucesso no verão...paraísos artificiais? Foi essa letra de música de FM 98 que me fez ler o Baudelaire - Paraísos artificiais - e o Thomas de Quincey - Confissões de Um comedor de ópio. Vai vendo, referências são referências. Obrigada pelas tuas.
Lindo, moça. Lindo com força.
Queria falar com você. Quando tiver tempo e ar para isso, te escrevo um e-mail.
Beijo!
Incrível. Coincide com minha atual fase de abstinência, meu amor por Radiohead e meu reencontro com as estrelas com a chegada da Primavera.
Foda!
Foda!
Foda!
Menina, esse post é incrível!
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